Não se prepare errado para a perícia — isso pode ser fatal para seu caso
Uma perícia médica judicial é um dos momentos mais decisivos de um processo. É nessa etapa que o juiz conta com a análise técnica de um especialista para determinar a veracidade de alegações sobre doenças, incapacidade ou danos.
No entanto, muitos participantes — autores, réus e até advogados — cometem erros graves antes e durante a perícia, por falta de informação ou por tentativas mal orientadas de “influenciar o resultado”.
Esses erros podem arruinar completamente o caso, afetando o parecer do perito e até prejudicando a credibilidade do avaliado.
Resumo rápido:
A preparação incorreta para uma perícia pode comprometer a avaliação médica e destruir a credibilidade do caso. A melhor estratégia é agir com transparência, coerência e respeito técnico durante todo o processo.
O que é a perícia médica judicial
A perícia médica é uma avaliação técnica realizada por um médico perito, nomeado pelo juiz, para responder a quesitos específicos do processo.
Ela serve para esclarecer dúvidas sobre diagnósticos, incapacidade laboral, nexo causal entre doença e trabalho, ou sequelas de acidentes.
O perito não representa nenhuma das partes — seu compromisso é com a verdade técnica e científica.
Por isso, qualquer tentativa de manipulação, exagero de sintomas ou inconsistência nas informações pode ser rapidamente identificada.
Os erros mais comuns antes da perícia
- Omitir informações médicas
Muitos avaliado omitem exames, tratamentos ou diagnósticos anteriores, acreditando que isso os beneficiará. O resultado é o oposto: a omissão prejudica a análise técnica e levanta dúvidas sobre a credibilidade. - Tentar ensaiar respostas
Repetir frases decoradas ou tentar convencer o perito com narrativas prontas é facilmente percebido. O perito está treinado para identificar incoerências e sinais de simulação. - Levar documentos desnecessários ou incompletos
A documentação deve ser objetiva e atualizada. Exames antigos, relatórios imprecisos ou laudos duplicados apenas confundem e atrasam a avaliação. - Agir de forma hostil ou defensiva
Alguns avaliados entram na perícia com atitude confrontadora, achando que precisam “defender” o caso. O comportamento agressivo ou desrespeitoso compromete a postura profissional e pode influenciar a interpretação do perito.
O mito da “preparação emocional”
Há uma ideia equivocada de que é possível “se preparar emocionalmente” para parecer mais doente ou mais estável durante a perícia.
Na prática, qualquer tentativa de simulação é prejudicial.
Os peritos são treinados para detectar sinais físicos, comportamentais e verbais incompatíveis com o quadro clínico descrito.
Mentir, exagerar sintomas ou omitir melhoras é o caminho mais rápido para perder credibilidade técnica.
A melhor preparação é a verdade acompanhada de documentos consistentes.
Como se preparar corretamente
- Organize seus documentos: leve laudos, exames e relatórios recentes e relevantes.
- Revise seu histórico de saúde: saiba explicar, com suas palavras, o que sente, desde quando e como isso afeta sua rotina.
- Durma bem e alimente-se adequadamente: o nervosismo pode afetar a clareza da comunicação.
- Respeite o profissional perito: trate a perícia como uma consulta técnica, mantendo postura colaborativa e educada.
- Evite interferências externas: não aceite “dicas” de como agir, muito menos orientações para fingir sintomas.
Essas atitudes transmitem seriedade e fortalecem sua credibilidade perante o juízo.
O papel do advogado na preparação ética
O advogado deve orientar o cliente sobre o procedimento da perícia, não sobre “o que dizer”.
Seu papel é garantir que todas as informações médicas estejam completas e organizadas, evitando qualquer interferência indevida.
A tentativa de influenciar o perito ou de induzir respostas pode configurar falta ética e até crime de falsidade ideológica.
Advogados experientes sabem que a transparência técnica é sempre mais eficaz do que qualquer tentativa de manipulação.
A importância da coerência técnica
Um ponto crucial na avaliação pericial é a coerência entre queixas, histórico e achados clínicos.
Se o perito observar discrepâncias evidentes — como relatos de dor intensa, mas movimentação normal —, isso será registrado no laudo.
A coerência é construída por meio de:
- Documentos médicos consistentes;
- Relatos objetivos;
- Postura sincera durante a avaliação.
A perícia não é um julgamento de caráter, mas uma análise técnica.
A clareza e a verdade são suas melhores defesas.
O impacto de erros na decisão judicial
Erros de conduta durante a perícia podem ter efeitos devastadores sobre o processo:
- O juiz pode desconsiderar o laudo ou interpretá-lo de forma desfavorável;
- A parte pode ser acusada de má-fé ou tentativa de fraude;
- Pode haver condenação em custas processuais;
- E, principalmente, a credibilidade da parte é perdida.
A justiça valoriza a honestidade técnica. A preparação correta é, portanto, uma estratégia ética e inteligente.
Conclusão
A perícia médica é um momento técnico, não teatral.
A forma correta de se preparar é com transparência, coerência e respeito pelo processo.
Tentar enganar o perito ou manipular resultados pode ser fatal para o caso — e também para a reputação profissional e pessoal do avaliado.
Na perícia, a verdade é a única estratégia que realmente funciona.
FAQ — Perguntas Frequentes
1. Como devo me comportar durante a perícia?
Com naturalidade, respeito e sinceridade. O perito está ali para avaliar tecnicamente, não para julgar.
2. Posso levar alguém comigo na perícia?
Depende do tipo de perícia. Na maioria dos casos judiciais, apenas o perito e o avaliado permanecem na sala.
3. É errado conversar demais com o perito?
O ideal é responder apenas o que for perguntado, de forma objetiva e educada.
4. Preciso levar todos os meus exames?
Leve apenas os documentos médicos recentes e relevantes ao caso.
5. Posso tomar remédios antes da perícia?
Sim, mas siga exatamente as orientações médicas. Interromper o tratamento sem indicação pode ser perigoso.
6. O perito pode achar que estou fingindo?
Se houver inconsistências entre seus relatos e os achados clínicos, o perito pode registrar dúvidas no laudo. Por isso, seja honesto e coerente.
7. O advogado pode orientar o cliente a como agir na perícia?
Sim, mas apenas explicando o procedimento e a importância da verdade. Instruções para simular sintomas configuram falta ética.
Referências
- Conselho Federal de Medicina (CFM). Código de Ética Médica – Resolução CFM nº 2.217/2018.
- Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Manual de Perícias Judiciais – 2023.
- Associação Brasileira de Medicina Legal e Perícias Médicas (ABMLPM). Diretrizes Éticas da Atuação Pericial.
- Ministério da Saúde. Boas práticas em perícias médicas e avaliações técnicas.
- Organização Mundial da Saúde (OMS). Ethics in Medical Evaluation and Expert Witnessing.
