Não se prepare errado para a perícia — isso pode ser fatal para seu caso

Não se prepare errado para a perícia — isso pode ser fatal para seu caso

Uma perícia médica judicial é um dos momentos mais decisivos de um processo. É nessa etapa que o juiz conta com a análise técnica de um especialista para determinar a veracidade de alegações sobre doenças, incapacidade ou danos.

No entanto, muitos participantes — autores, réus e até advogados — cometem erros graves antes e durante a perícia, por falta de informação ou por tentativas mal orientadas de “influenciar o resultado”.
Esses erros podem arruinar completamente o caso, afetando o parecer do perito e até prejudicando a credibilidade do avaliado.

Resumo rápido:
A preparação incorreta para uma perícia pode comprometer a avaliação médica e destruir a credibilidade do caso. A melhor estratégia é agir com transparência, coerência e respeito técnico durante todo o processo.

O que é a perícia médica judicial

A perícia médica é uma avaliação técnica realizada por um médico perito, nomeado pelo juiz, para responder a quesitos específicos do processo.
Ela serve para esclarecer dúvidas sobre diagnósticos, incapacidade laboral, nexo causal entre doença e trabalho, ou sequelas de acidentes.

O perito não representa nenhuma das partes — seu compromisso é com a verdade técnica e científica.
Por isso, qualquer tentativa de manipulação, exagero de sintomas ou inconsistência nas informações pode ser rapidamente identificada.

Os erros mais comuns antes da perícia

  1. Omitir informações médicas
    Muitos avaliado omitem exames, tratamentos ou diagnósticos anteriores, acreditando que isso os beneficiará. O resultado é o oposto: a omissão prejudica a análise técnica e levanta dúvidas sobre a credibilidade.
  2. Tentar ensaiar respostas
    Repetir frases decoradas ou tentar convencer o perito com narrativas prontas é facilmente percebido. O perito está treinado para identificar incoerências e sinais de simulação.
  3. Levar documentos desnecessários ou incompletos
    A documentação deve ser objetiva e atualizada. Exames antigos, relatórios imprecisos ou laudos duplicados apenas confundem e atrasam a avaliação.
  4. Agir de forma hostil ou defensiva
    Alguns avaliados entram na perícia com atitude confrontadora, achando que precisam “defender” o caso. O comportamento agressivo ou desrespeitoso compromete a postura profissional e pode influenciar a interpretação do perito.

O mito da “preparação emocional”

Há uma ideia equivocada de que é possível “se preparar emocionalmente” para parecer mais doente ou mais estável durante a perícia.
Na prática, qualquer tentativa de simulação é prejudicial.

Os peritos são treinados para detectar sinais físicos, comportamentais e verbais incompatíveis com o quadro clínico descrito.
Mentir, exagerar sintomas ou omitir melhoras é o caminho mais rápido para perder credibilidade técnica.

A melhor preparação é a verdade acompanhada de documentos consistentes.

Como se preparar corretamente

  • Organize seus documentos: leve laudos, exames e relatórios recentes e relevantes.
  • Revise seu histórico de saúde: saiba explicar, com suas palavras, o que sente, desde quando e como isso afeta sua rotina.
  • Durma bem e alimente-se adequadamente: o nervosismo pode afetar a clareza da comunicação.
  • Respeite o profissional perito: trate a perícia como uma consulta técnica, mantendo postura colaborativa e educada.
  • Evite interferências externas: não aceite “dicas” de como agir, muito menos orientações para fingir sintomas.

Essas atitudes transmitem seriedade e fortalecem sua credibilidade perante o juízo.

O papel do advogado na preparação ética

O advogado deve orientar o cliente sobre o procedimento da perícia, não sobre “o que dizer”.
Seu papel é garantir que todas as informações médicas estejam completas e organizadas, evitando qualquer interferência indevida.

A tentativa de influenciar o perito ou de induzir respostas pode configurar falta ética e até crime de falsidade ideológica.
Advogados experientes sabem que a transparência técnica é sempre mais eficaz do que qualquer tentativa de manipulação.

A importância da coerência técnica

Um ponto crucial na avaliação pericial é a coerência entre queixas, histórico e achados clínicos.
Se o perito observar discrepâncias evidentes — como relatos de dor intensa, mas movimentação normal —, isso será registrado no laudo.

A coerência é construída por meio de:

  • Documentos médicos consistentes;
  • Relatos objetivos;
  • Postura sincera durante a avaliação.

A perícia não é um julgamento de caráter, mas uma análise técnica.
A clareza e a verdade são suas melhores defesas.

O impacto de erros na decisão judicial

Erros de conduta durante a perícia podem ter efeitos devastadores sobre o processo:

  • O juiz pode desconsiderar o laudo ou interpretá-lo de forma desfavorável;
  • A parte pode ser acusada de má-fé ou tentativa de fraude;
  • Pode haver condenação em custas processuais;
  • E, principalmente, a credibilidade da parte é perdida.

A justiça valoriza a honestidade técnica. A preparação correta é, portanto, uma estratégia ética e inteligente.

Conclusão

A perícia médica é um momento técnico, não teatral.
A forma correta de se preparar é com transparência, coerência e respeito pelo processo.

Tentar enganar o perito ou manipular resultados pode ser fatal para o caso — e também para a reputação profissional e pessoal do avaliado.
Na perícia, a verdade é a única estratégia que realmente funciona.


FAQ — Perguntas Frequentes

1. Como devo me comportar durante a perícia?
Com naturalidade, respeito e sinceridade. O perito está ali para avaliar tecnicamente, não para julgar.

2. Posso levar alguém comigo na perícia?
Depende do tipo de perícia. Na maioria dos casos judiciais, apenas o perito e o avaliado permanecem na sala.

3. É errado conversar demais com o perito?
O ideal é responder apenas o que for perguntado, de forma objetiva e educada.

4. Preciso levar todos os meus exames?
Leve apenas os documentos médicos recentes e relevantes ao caso.

5. Posso tomar remédios antes da perícia?
Sim, mas siga exatamente as orientações médicas. Interromper o tratamento sem indicação pode ser perigoso.

6. O perito pode achar que estou fingindo?
Se houver inconsistências entre seus relatos e os achados clínicos, o perito pode registrar dúvidas no laudo. Por isso, seja honesto e coerente.

7. O advogado pode orientar o cliente a como agir na perícia?
Sim, mas apenas explicando o procedimento e a importância da verdade. Instruções para simular sintomas configuram falta ética.

Referências

  1. Conselho Federal de Medicina (CFM). Código de Ética Médica – Resolução CFM nº 2.217/2018.
  2. Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Manual de Perícias Judiciais – 2023.
  3. Associação Brasileira de Medicina Legal e Perícias Médicas (ABMLPM). Diretrizes Éticas da Atuação Pericial.
  4. Ministério da Saúde. Boas práticas em perícias médicas e avaliações técnicas.
  5. Organização Mundial da Saúde (OMS). Ethics in Medical Evaluation and Expert Witnessing.

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