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22/04/2009
Um ensaio sobre a realidade de Descartes e a loucura
Em Descartes e suas “Meditações Metafísicas” a dúvida sistemática como método para se buscar a realidade é apresentada. De posse deste método o autor pretende minar toda a estrutura de aquisição de conhecimento até aquela época e reestruturá-la. Em um movimento de oposição à Escolástica, escreve que recebera “falsas opiniões como verdadeiras” e que então, tudo o que se desdobra a partir destes ensinamentos falsos só pode ser também falso. Neste preâmbulo anuncia que tudo aquilo que verá pela frente, inclusive os antigos ensinamentos que recebera, será posto à prova da dúvida. Inicialmente questiona a realidade sensível, a realidade que chega ao indivíduo através da sensação. Começam a aparecer as primeiras dificuldades no caminho, quando coloca que há coisas das quais não se consegue duvidar, como por exemplo a existência momentânea, “como é que eu poderia negar que essas mãos e este corpo são meus?” Coloca então que o louco é a única pessoa que nega esta existência, que nega esta verdade. Voltando a defender seu ponto, diz que é homem e não é louco, e por isso representa para si coisas menos verossíveis mas em sonho, enquanto aqueles o fazem durante a vigília. Surge aí um vácuo entre o real e o falso, onde o louco sonharia acordado, então correspondendo os sonhos aos falsos, enquanto que o mundo sensível momentâneo seria o verdadeiro. Mas retoma sua linha de raciocínio quando coloca então sonho e vigília no mesmo patamar, ao colocar que as representações de ambos são da mesma qualidade; representações do mundo sensível e do sonho se nos apresentam na mente com a mesma qualidade. É neste ponto que paramos para refletir.
Quero colocar em evidência aqui a nossa consciência. As representações oníricas e as do mundo sensível de fato se nos apresentam na mente com a mesma qualidade; quando olhamos um objeto, ou melhor, quando o mesmo se forma em imagem no nosso cérebro através da representação, a imagem é a mesma que a do sonho. Mas, apesar de a representação ser a mesma, conseguimos distinguir entre uma representação onírica e uma representação do mundo sensível. Para uma pessoa em seu estado normal é muito difícil não se reconhecer a diferença entre uma e outra. O que seria este estado normal, que permite a separação entre duas representações iguais em uma falsa e outra verdadeira? A este substantivo acresce-se outra palavra: estado normal de consciência.
A consciência é que dita se uma representação é onírica ou do mundo sensível. Aqui já coloco a primeira como sendo falsa e a segunda como sendo real. Não é a verossimilhança que conta para se distinguir se uma representação é falsa ou não, é a maneira como a consciência se apodera destas experiências. Em tempo, no que reside o significado de verossimilhança? Verossimilhança nada mais é do que saber se uma coisa é viável, possível no mundo real. Quando sonhamos que um elefante está voando ou que um peixe está andando pela terra sabemos que é algo irreal através da verossimilhança; comparamos as representações com o real e vemos ser aquilo impossível. Entretanto se sonhássemos que dois e três são sete não poderíamos pensar ser aquilo um erro, como uma criança aprendendo a calcular. Elefantes não erram e levantam vôo, portanto a verossimilhança serviria para testarmos as representações sensíveis e não as matemáticas. Mas a verossimilhança não é um ponto bom para definirmos real e falso, justamente por ancorarmos seu funcionamento no próprio real que queremos justificar, fechando um círculo.
Prossigamos então. Uma experiência comum em algumas pessoas são as alucinações hipnagógicas e hipnopômpicas. Nomes complexos para designar alucinações que ocorrem em estado de rebaixamento de consciência; na primeira situação o indivíduo está em semi-vigília, preparando-se para o sono. A janela da consciência estreita-se, o mundo sensível chega a ele de modo mais obnubilado, e a mente está sujeita à aparição de falsas percepções, as alucinações. É durante este estado de transição que somos mais propensos a enxergar coisas que não correspondem ao mundo sensível. Por outro lado, quando acordamos o mesmo processo ocorre, a consciência não se restaura de maneira íntegra rapidamente, e no tempo em que ela está reunindo suas partes estamos mais susceptíveis às falsas percepções, às alucinações hipnopômpicas.
Outro exemplo são as alterações orgânicas do cérebro. Quando há um tumor localizado no sistema nervoso central, quando ocorrem alterações sangüíneas, quando há o uso de substâncias psicotrópicas, alucinações visuais e auditivas podem acontecer. Entretanto o que é característico da origem orgânica de tais perturbações da sensopercepção é que o indivíduo, quando seu estado de consciência não se encontra alterado pela droga, pela doença, ou por outro motivo, por exemplo, possui crítica de que estas representações são falsas. Como não está dormindo e aquelas representações não cabem ali, sabe que elas são falsas.
Neste último exemplo como no anterior a pessoa tem capacidade de julgar o que é verdadeiro do falso se faz através da consciência e da verosimilhança com o externo. No primeiro reconhece que a consciência no estado pré e pós sono não tem a mesma qualidade do que em plena vigília. Desta forma, como nos sonhos, dá a qualidade de falsas àquelas percepções que surgiram naquele momento. Se não atribuem completa falsidade a tais representações devido a verossimilhança, pelo menos colocam grande quantidade de dúvida por não se encontrarem em plena consciência. No segundo exemplo as representações geralmente ganham caráter de falso mais pela manutenção da consciência em associação com a incapacidade de aquelas representações não existirem ali naquele momento.
Assim distiguimos o real do verdadeiro através da maneira como obtemos essas informações, avaliando se nossa consciencia está íntegra naquele momento, e através da verossimilhança com o mundo real; comparando se aquilo que vemos pode estar ali. Mas, vou além; no que consiste a consciência? Quando ela começa a existir? A consciência consiste em parte em um núcleo, um ser para eu mesmo. “Cogito ergo sum”. Começamos a existir enquanto consciência quando iniciamos nosso pensamento no mundo. Entretanto, nossa consciência inevitavelmente também depende de um externo, de um ser a outro. Se não há o outro eu ninguém sou.
Assim, o real depende da consciência e desta forma possui duas âncoras; uma externa e outra interna. A externa baseia-se na verossimilhança, que é a constante comparação com o mundo sensível. Fazemos este movimento constantemente, nosso cérebro o faz de modo automático e incosciente. Sempre que observamos um objeto, uma cor, uma pessoa, algo, tomamos modelos já vistos antes. É diferente a criança que olha para o mundo e enxerga aquilo como uma coisa só e o adulto que pode vislumbrar em um retrato de representação sensível do que está olhando diversos objetos. Sabemos que a máquina humana não é perfeita e que vivemos tendo erros nas percepções; o sinal óptico como chega no cérebro às vezes carrega erros que o mesmo corrige. Podemos verificar facilmente isso nas ilusões de óptica onde representações sensíveis burlam esta correção do cérebro e vemos representados em nossa mente algo diferente do real. Esta é a âncora externa do real, damos a qualidade de real àquilo que se faz presente no real e nos chega sensivelmente; esta dobra que o mundo sensível realiza em nós e com a qual nos insere significados. É a partir deste momento que nos tornamos conscientes, é a partir deste momento que existimos. Verifíca-se que as nossas primeiras marcas mnêmicas, nossas primeiras lembranças, se produzem quando entramos no mundo simbólico e passamos a dar nomes, a falar as primeiras palavras e significá-las. Nossa consciência começa a existir a partir do advento do símbolo.
A âncora interna do real é a nossa consciência, por conseqüência. O espaço onde estes sinais sensíveis chegam e se fazem representações é a consciência. É ela que faz a correção dos erros de transdução, é ela que, quando perturbada, realiza falsas-percepções e falsas associações.
Assim, externo, representação e consciência nos asseguram da qualidade de real. Mesmo quando o externo falta, como é o caso do sonho onde há apenas representação e a consciência, encalacrada em si mesmo sob a escuridão do sono, a representação tem o álibi de não ter de fazer juz ao real. A pessoa pode até me comunicar o seu sonho, mas aquilo que traz para mim carrega a insígnia onírica, que se que não aconteceu no mundo real e não pôde ser compartilhado.
Retomando Descartes em seu ensaio observamos que a direção que o mesmo utiliza para a obtenção das verdades é a de dentro para fora, em mão única. Desconstroi toda a realidade, colocando que toda ela pode ser falsa, e centraliza dentro do homem a verdade. A verdade deve ser buscada nas entranhas da mente, ignorando todo o mundo exterior. De posse desta concretude interior, deve-se partir para fora e investigar o mundo sensível e construir as sólidas outras verdades. Quando coloca algo parecido com “ninguém poderá aí então me impôr realidades falsas” (palavras não extraídas do texto) neste sistemático e devastador caminhar da dúvida, realiza um movimento que vejo muitas vezes acontecer na loucura. Não é um sistema interdependente entre consciência e externo.
A loucura, diferentemente das situações anteriores de alterações orgânicas ou de perturbações da consciência, faz exatamente este movimento de impôr realidades internas no exterior. Quando questionamos a veracidade de uma representação ou de um pensamento delirante a um louco, com base no nosso real universal e compartilhado, as palavras que profere não são muito diferentes da que Descartes coloca em sua primeira meditação.
Por conseguinte a loucura é uma imposição de uma verdade pessoal ao exterior. O que caracteriza ela como falsa então? O louco não possui, até onde sabemos, uma alteração orgânica da mesma magnitude das descritas anteriormente. Sabemos que sua mente enquanto órgão biológico está funcionando de maneira anatomicamente adequada, uma vez que não há flutuações dessas falsas crenças e falsas percepões (ao contrário dos exemplos citados anteriormente).
Duas coisas a tornam falsas: a primeira delas é a ancoragem externa. Muitas das coisas que os loucos nos falam e dizem sabemos que não é verdade por não serem verossímeis: falham na verificação de validade no mundo real. A segunda coisa é serem representações pessoais que eles colocam em lugares errados; colocam-nas como compartilhadas ao jogarem-nas no nosso mundo sensível.
Quando relatam verem uma alucinação ou crer em determinado delírio, tem a certeza de que podemos compartilhar de tais fenômenos pois para eles estas experiências se situam em um espaço comum a eles e a nós. Não é como um sonho que só ele sabe que teve, e que, ao nos relatar, sabemos que é apenas um relato e que aquela experiência é única e pessoal, individual. É tentar compartilhar impressões pessoais. Assim o real lhes é enviezado e como a ancoragem externa está como que avariada há espaço para as falsas representações. Toda esta questão pode ser observada quando conversamos com pessoas possuídas pela loucura. Afirmam-nos com certeza inquestionável que o que estão vendo é real (i.e., que podemos compartilhar aquilo, uma vez que “real” significa que podemos compartilhar). Quando duvidamos de suas impressões ou de seus delírios é como se estivéssemos apunhalando-os.
A diferença entre Descartes e o louco é que Descartes, apesar de acreditar que tudo é falso, conseguiu nos convencer disso e com isso tornou a dúvida “real”, coisa que o louco ainda não conseguiu.
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