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13/04/2009
Doenças mentais e capitalismo

Muito se fala das descobertas biológicas na psiquiatria. Como o cérebro funciona, como os neurotransmissores agem, como as conexões cerebrais se realizam e toda a dinâmica dos impulsos nervosos ao longo das redes neurais. Também hoje muito se tem sobre a psicologia, ou psico-análise do cérebro; muitas teorias foram elaboradas, como as de Freud, Lacan, Winicott, Deleuze, e assim por diante. Hoje se tem um bom conhecimento, assim, da parte biológica e da parte psicológica do ser humano. Mas, falta algo?

Pouco se fala da sociedade afetando o ser humano, com enfoque em doenças psiquiátricas. No que a sociedade capitalista de hoje afeta os seres humanos?

Se pensarmos na sociedade de hoje surgem algumas características em nossa mente. Uma delas é a necessidade por rapidez. Nos dias atuais é inegável que a velocidade das coisas tenha aumentado muito. Comunicações hoje são realizadas real-time com pessoas do outro lado do mundo, viaja-se de um lado a outro do globo em poucas horas, quantidades de informações são acessadas com grande facilidade pela internet. Hoje as coisas são realizadas cada vez mais rápido. Há uma ânsia desumana por resultados, por rapidez. Assim, no homem os resultados são cobrados para ontem, prazos são cada vez mais curtos e metas são cada vez maiores. O capitalismo cobra, exige; dá ordens, demanda. Não pede, ordena. Se não cumprido, está-se sujeito a perder o emprego.

Quais os reflexos disso no ser humano? Ânsia; daí ansiedade, conforme deriva a palavra. O número de pessoas hoje esmagada pela ânsia de rapidez do capitalismo é cada vez maior. Pânico, depressão e estresse tornaram-se coisas corriqueiras. É comum convivermos com essa possibilidade no nosso dia-a-dia.

Outro aspecto que nos vem à mente quando pensamos nos dias de hoje é um resultado mais próximo do capitalismo, que seria a hipertrofia do setor intermediário. Que setor intermediário? O capitalismo é um sistema econômico onde se ganha, se tem o lucro, na base da mais-valia. Ou seja, cada vez que um produto passa de uma pessoa a outra, há um acréscimo no preço do mesmo para que este intermediário tenha seu lucro. O produto no final ou ganha um preço exorbitante ou os intermediários ganham pouco, tendo que ganhar no número. Com isso há uma busca cada vez maior por esse intermediário, que fica hipertrofiado. Que quero dizer com isso, que na busca da sobrevivência, não havendo lugar no mercado de trabalho, ou mesmo havendo mas existindo poucas oportunidades, criam-se cada vez mais postos intermediários no sistema econômico. Um produto que antes envolvia o trabalho de 10 funcionários hoje envolve o dobro de pessoas no trajeto de sua idéia até sua concepção e venda ao consumidor final.

Com esse intermediário hipertrofiado tem-se alguns reflexos: sub-emprego é um deles. Empregos se tornam cada vez mais sem sentido, pagam cada vez menos. Se antes um trabalhador participava em 50% da elaboração de um produto, hoje ele participa em 5% da fabricação do mesmo; o sentido do trabalho esvazia-se. Isso percorre a sociedade desde os operários braçais até os serviços mais intelectualizados. Se por um lado as linhas de montagem produzem esses efeitos aos operários, os convênios médicos, produtores de intermediários, fazem isso com o médico, dividindo o trabalho em especialidades infinitas e obrigando os médicos a atender em série, de modo que possam obter algum tipo de lucro. Por sua vez os empresários também sofrem os mesmos efeitos com a divisão excessiva do trabalho. Recebem cada vez mais pressão e seu trabalho é cada dia mais específico, o que lhe tira o sentido também. O resultado disso é mais pressão.

Qual seria a saída para um mundo onde cada vez as coisas são exigidas com maior rapidez e onde o sentido das coisas é cada vez menor? Consciência, busca de interioridade, de subjetivação.

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